domingo, 22 de outubro de 2017

Eu quero esquecer

Eu quero esquecer
Velejar a memória das tuas mãos para longe
O abraço dos teu olhar monge
Onde eu não possa mais lembrar
E reviver

Eu quero ferver
A poesia da tua voz numa fonte
Bebê-la em chá num monte
Suar a água que do pranto vim conter

Eu quero esquecer
Não ter mais comparação
Desta imensa paixão
Com a calma de viver

Saber perder
Esperar sem saber
Eu quero esquecer
Para poder voltar a ver


segunda-feira, 31 de maio de 2010

Venus

Existe um sonho debaixo do teu coxim
Te embala num polverizante aroma de anjo
Te fala das pureza das coisas
Apaga-te toda a memória do Mundo Azul
Te lembra de que é possível só e simplesmente existir
pisar o solo e sentir
cantar todo o teu corpo num grito
Diz te que chorar é libertar
e tuas lágrimas são fagulhas da tua alma
que as expulsa exasperadamente
como se o negro se repelisse da luz imensa que somos

Não ligues nenhum televisor
não deixes que te sugue a liberdade
tu és mais do que ele te mostra
porque um espelho embacio das mesmas aguas turvas
nunca te leverá num caminho

O sonho conta-te que podes olhar para cima
e que deves sentir que ninguem te controla
Pois não podes comprar as nuvens
Não ha dinheiro para pagar ao sol
ele deixa-te habitar-te
podias então viver em ti.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Ais

Se as bagadas de ar fresco não soassem a mel
infinito doce dos teus lábios glaciais
por mais que finja ser maior do que pétalas de lis
que o teu corpo, pirâmide impermeável, não recebe nunca mais

Se ais não chegam para te desencantar do abismo
amarei sempre cada teu vinco emotivo
de fonte até à morte
de corpo até alma.

Diz-me em murcho o que te vai no coração
Se é pedra ou calo que te prende uma abolição
porque há salteadores de marés
que me levaram a respiração

Senti que se te levo no vento
te trago em elemento



Catarina Miranda

domingo, 13 de setembro de 2009

Uma conversa banal enevoa ardente
numa esplanada um pouco diferente
sui generis o seu nome, e a ironia na paisagem

Carlos Diamante, dono de seu triunfante
destino aperta os dois pulsos numa contemplação,
se me permitem descrever, orgásmica corrente
em plenos olhos dormentes
de tanto ougar aquele objecto rolante

Nunca entendi a fervura do homem pelo futebol
talvez pela bola ser curva
e o nosso corpo estar relacionado a formas redondas
ao contrario do quadrado relacionado ao molde masculino
adverso ao nosso corpo violino

Mas nem tudo os centra para nós
as mulheres são tolas em acreditarem ser o imo
Se somos o portal para o divino
onde a chave se encontra em suas gadanhas

Falo então sobre a telenovela de segunda
do actor primacial que é tão bom
da actriz que não é bonita como deve de ser
e do pai, o núcleo de todo o emaranharão
que vai alimentar 150 serões de mexerilhão!

Carla Fólícia, funcionária publica há 5 anos
queixa-se-me de falta de simpatia da parte do patrão
de como ele a deixa louca, pela simples lei do desprezo
dos jogos de cintura
da incerteza que lhe paira, "- Uma névoa incandescente! Maria Lua!"
oh sim...como se não soubesse que são fantasias
apenas ficções de um capricho, a necessidade tamanha de sentir amor
nem que seja ilusão do fervor.
Inconscientemente as pessoas procuram-na
preferindo viver no limbo,
na constante preseguição
da terráquea consciência.

Catarina Miranda

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Centro do labirinto

"Possivelmente, o amor continua a chamar-nos do centro do labirinto e nós andamos às voltas sem sermos capazes de o encontrar. Porque o labirinto não é um jogo: é a defesa mágica dum centro, duma significação, e talvez seja necessário despojarmo-nos de muitas coisas e tornar a vestir as vestes da inocência para que o amor nos possa ser revelado (...)"
" Diz a sabedoria tântrica que toda a mulher nua incarna a Natureza - a Prakriti - Natureza-Mãe que é necessário solarizar para que a junção do Sol e da Lua regresse ao estado primordial de indiferenciação. Não se trata da dualidade, mas de, com a ajuda da mulher, despertarmos a mulher adormecida que temos dentro de nós.
Porque nós não nos pomos no lugar do outro: temos é que descobrir o que o outro acorda em nós."

in Riso de Deus, de António Alçada Baptista (1994)

domingo, 21 de junho de 2009

Ventura

Andei pelas quebradas abismais
Em busca dessa argila que era eu,
Mas nada consegui do que foi meu
Nem vi, sequer, o rasto dos meus ais!

Voltei às convivências espectrais
Da sombra em que o meu ser se converteu
E o sonho que vivi perto do céu
Perdeu-se como as folhas outonais!

Talvez exista ainda na lonjura
A catedral imensa da ventura
Firmando o pedestal do meu desejo…

Talvez exista, sim, quem sabe lá?
Mas onde procurá-la? – Onde está?
Se eu vivo dentro dela e não a vejo?!

Alberto Miranda, Musa incerta (1957)

domingo, 7 de junho de 2009

Trapos da Viagem

Como suas mãos são leves de vento
de tão pesadamente seu coração bater
o meu cabelo emana da minha ternura
e é, então, a combustão que vê dele suster
Somos compassos, senhor, somos a morte vivendo de amor
em cada fagulha planto-lhe cores das ilustres viventes de nosso jardim
as minhas saias emaranham-se no rosal
e voltam às mãos de majestoso meu rei as pétalas apresadas,
porque me prende em seus braços a cada poiso de suas asas
e tudo o que lhe posso oferecer
além de mi alma
trazem os meus trapos da viagem